
A cadeia logística global voltou a enfrentar sérias pressões. Desta vez, o epicentro está na Europa, com portos superlotados, rotas marítimas alteradas e gargalos que afetam o abastecimento em diversos setores. A origem dessa nova crise é complexa — mas tem relação direta com decisões políticas e climáticas.
Para entender o que está por trás desse colapso e quais os seus possíveis desdobramentos, conversamos com Juliana Deoracki, sócia da Cadarn Consultoria e especialista em supply chain.
Juliana explica como as tarifas impostas pelos Estados Unidos, especialmente durante o governo Trump, provocaram uma reconfiguração das rotas globais de comércio, desviando um grande volume de cargas asiáticas para a Europa — sem que a infraestrutura portuária do continente estivesse preparada para isso.
A entrevista também aborda os impactos dos baixos níveis do rio Reno, os tipos de investimento necessários para evitar novos colapsos e os setores mais vulneráveis aos efeitos dessa crise.
Confira a seguir a análise completa.
Qual a ligação direta entre as novas tarifas impostas pelos EUA e o aumento do congestionamento nos portos europeus?
As políticas tarifárias dos EUA (especialmente as de Trump) forçaram uma reconfiguração das rotas marítimas, desviando mercadorias que iriam para os EUA para a Europa. Isso causou superlotação nos portos europeus (como Roterdã, Antuérpia e Hamburgo), levando a longos atrasos e comprometendo a previsibilidade do sistema logístico.
Como a alteração das rotas marítimas globais tem afetado a logística?
O desvio de mercadorias devido às tarifas dos EUA resultou em um aumento significativo (cerca de 7%) das importações asiáticas para a Europa. Isso sobrecarrega a infraestrutura portuária europeia, já operando no limite, aumentando os tempos de permanência de contêineres e pressionando a capacidade de mão de obra e equipamentos.
Qual é o papel dos baixos níveis do rio Reno neste cenário de crise logística?
O rio Reno é uma via fluvial vital para o transporte interno na Europa. Seus baixos níveis de água, causados por uma primavera seca, restringem a capacidade das embarcações, que não conseguem carregar peso total. Isso agrava o congestionamento nos portos (pois a carga não flui para o interior), aumenta custos de transporte e causa mais atrasos na distribuição.
Considerando o contexto atual, que tipo de investimentos são necessários para evitar colapsos semelhantes no futuro?
Para evitar colapsos logísticos futuros, é fundamental expandir e modernizar a infraestrutura portuária e intermodal, como terminais e conexões com ferrovias e hidrovias, incluindo a manutenção de vias navegáveis; paralelamente, a adoção de tecnologias avançadas como digitalização, automação, inteligência artificial para otimização e visibilidade da cadeia, além de sistemas de monitoramento climático, é indispensável; o investimento no capital humano, por meio de treinamento e contratação de pessoal qualificado, garante a operação eficiente dessas melhorias; e, por fim, a construção de cadeias de suprimentos mais resilientes, com estoques de segurança estratégicos, diversificação de fornecedores e rotas, e a consideração de estratégias de mitigação da dependência excessiva de modelos Just-in-Time.
Esta crise logística na Europa pode gerar efeitos em cadeia a nível global? Quais seriam os setores mais vulneráveis?
Sim, a crise tem alto potencial de efeitos em cadeia global, elevando custos de frete, causando atrasos na produção e afetando a disponibilidade de produtos mundialmente. Os setores mais vulneráveis são aqueles com cadeias de suprimentos longas e otimizadas para “Just-in-Time”, como por exemplo moda e eletrônicos de consumo (sensibilidade a atrasos e sazonalidade) e automotiva, eletrônica, máquinas (dependência de componentes).