
A recente escalada do conflito entre Israel e Irã reacendeu incertezas em escala global — com efeitos imediatos sobre o preço do petróleo, cadeias logísticas, inflação e relações diplomáticas entre as grandes potências. Em meio a esse cenário volátil, entender as conexões entre geopolítica e economia torna-se essencial para empresas, investidores e formuladores de políticas públicas.
Para esclarecer os desdobramentos mais relevantes desse episódio, convidamos Maria Macedo, especialista de inteligência da Cadarn Consultoria, para responder perguntas-chave sobre os efeitos do conflito no Brasil e no mundo.
Na entrevista, Maria explica como o preço do petróleo influencia a inflação brasileira, comenta o papel de EUA, China e Rússia na tentativa de mediação e analisa o impacto do cessar-fogo sobre os mercados. Ela também traz uma leitura técnica sobre os riscos de um eventual bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde passa um quinto do petróleo consumido globalmente — e suas potenciais consequências para a estabilidade econômica mundial.
Confira a análise completa a seguir.
1- Quais são os impactos mais relevantes do conflito Israel x Irã para a economia brasileira? E para a economia global?
A principal preocupação econômica relacionada ao conflito entre Israel e Irã envolve a alta no preço do petróleo e seus efeitos em cadeia sobre outras mercadorias importadas e exportadas. No sábado, 21 de junho, o preço futuro do barril de petróleo Brent atingiu US$ 79,25, e, diante de ameaças como o possível fechamento do Estreito de Ormuz e uma redução na produção iraniana, analistas estimam que o preço possa chegar a US$ 90 ou até mesmo ultrapassar os US$ 100.
Esse aumento afeta diretamente a inflação de países importadores de petróleo, como o Brasil. Segundo o banco JP Morgan, para cada elevação de 10% no preço do petróleo, o IPCA – principal índice de inflação do país – pode subir cerca de 0,2 ponto percentual, considerando o peso da gasolina, diesel e etanol na composição do índice.
Considerando que a principal matriz de transportes brasileira é a rodoviária, o aumento no preço dos combustíveis pressiona os preços dos fretes, encarecendo os custos de produção industrial e agrícola. Isso, por sua vez, pode gerar um efeito cascata sobre os preços ao consumidor, reduzindo seu poder de compra e dificultando o controle da inflação.
Já no cenário global, a guerra também pode afetar rotas marítimas, tarifas de transporte e o preço de commodities, em especial o petróleo. Desvios de rotas, congestionamentos em portos, aumento de fretes e de petróleo afetam cadeias produtivas globais.
2 – O fim do conflito pode reduzir a pressão sobre os preços internacionais do petróleo e dos fertilizantes. Como isso pode impactar a inflação e o crescimento da economia brasileira no curto prazo?
Com o cessar-fogo entre Israel e Irã anunciado no dia 24 de junho, a tensão sobre o barril de petróleo diminuiu, saindo de US$ 75 para US$ 67 o brent. A queda no preço diminuiu a defasagem entre os valores internacionais e os preços praticados pela Petrobrás, que no dia 23 havia atingido 18% de diferença no diesel e 9% na gasolina. Esse alívio reduz a pressão para reajustes internos, contribuindo para o controle da inflação. No entanto, a estabilidade no preço do petróleo vai depender da não escalada do conflito.
O recuo no petróleo a uma leve apreciação cambial já começou a influenciar as projeções econômicas. O relatório da Política Monetária divulgada no dia 26 indicou leve queda nas projeções para inflação de 2025: a projeção foi de 5,1% para 4,9%.
3 – Quais seriam as consequências econômicas para Mundo, com o fechamento do canal de Ormuz?
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima entre o Irã e a península Arábica por onde passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, em torno de um quinto do consumo global. No dia 22 de junho, o Irã aprovou o fechamento do Estreito em resposta aos bombardeios lançados pelos Estados Unidos.
Os impactos do bloqueio seriam sentidos globalmente. De acordo com a Goldman Sachs, ele seria capaz de impulsionar o preço do petróleo para além dos US$ 100 por barril, o que levaria a um aumento nos custos de produção e inflação de diversos produtos, em especial para alimentos e produtos químicos.
Somente a ameaça do fechamento já foi suficiente para abalar o mercado e gerar crescimento no preço de seguros marítimos, petróleo e desvios de rotas de navios.
Além disso, o bloqueio do estreito pode dificultar os planos de cortes nas taxas de juros por parte dos principais bancos centrais.
No momento, a tensão entre Israel e Irã parece ter diminuído e a ameaça de fechamento do Estreito não se concretizou. No entanto, novas ofensivas entre os dois países podem reativar essa possibilidade. O cenário permanece instável e sujeito a mudanças rápidas.