
Com a recente proposta de aumento de tarifas sobre produtos brasileiros pelo governo Trump, o Brasil se vê diante de um novo cenário de incertezas comerciais e estratégicas. Para entender os possíveis impactos dessa medida, que entra em vigor no dia 6 de agosto, sobre a cadeia de suprimentos, o planejamento das empresas e a balança comercial do país, conversamos com Ana Clara Yumi, especialista em inteligência da Cadarn Consultoria.
Nesta entrevista, Ana analisa os produtos mais vulneráveis, as consequências para empresas com operações Brasil-EUA e os caminhos possíveis para diversificação e resiliência diante das novas tensões comerciais.
1- Que tipos de produtos brasileiros estariam mais vulneráveis a esse tipo de taxação, do ponto de vista da cadeia de suprimentos?
Do ponto de vista da cadeia de suprimentos, os produtos mais vulneráveis ao tarifaço americano, levando em consideração apenas os produtos que não foram isentos das tarifas de 50%, são aqueles que: possuem uma menor diversificação de mercado consumidor para além dos EUA, tendo forte dependência das exportações para o mercado americano; produtos que possuem maior valor agregado que concentrar a maior parte das etapas da produção realizadas no Brasil; e aqueles produtos, principalmente commodities, inseridos nas cadeias globais de valor, em que o país atue como fornecedor estratégico para as empresas americanas.
Neste sentido, podemos citar alguns exemplos de tipos de produtos que serão mais afetados pelo tarifaço, considerando os produtos isentos da taxação, sendo eles: o café, pois os EUA representam o maior cliente do café brasileiro, cujas exportações representam 30% do café consumido no mercado americano; a carne bovina também será altamente afetada pelas tarifas, pois no curto-prazo, não há mercado substituto para o americano, tendo em vista ao volume elevado das importações e o preço que estava sendo negociado, e dados revelam que as tarifas acabaram frustrando a expectativa de venda de 400 mil toneladas de carne até o final do ano para os EUA. Outros produtos que também são altamente dependentes das exportações para os EUA são os pescados e as frutas, e o risco está concentrado principalmente nas exportações de manga, uva e açaí.
Com relação a produtos de maior valor agregado, podemos citar a exportação de produtos têxteis e móveis, com exceção de alguns itens específicos, incluindo os artigos relacionados a aeronaves, que foram isentos das tarifas, assim como calçados e móveis também serão afetados. Por fim, podem citar que as exportações de máquinas agrícolas e industriais também serão afetadas pelas taxas, em que as isenções abarcavam apenas peças para a indústria de papel e celulose e de aeronaves civis.
2- Quais as consequências da taxação para empresas com operações integradas Brasil–EUA?
As consequências para as empresas com operações integradas Brasil-EUA são graves, principalmente para as empresas que operam de forma vertical e integrada entre os dois países ou que são integrantes na cadeia global de valor. Neste sentido, podemos pensar em algumas consequências, sendo elas: aumento dos custos operacionais, afetando as cadeias de produção just in time; risco de redução de competitividade, principalmente com relação aos demais concorrentes de países não afetados por tarifas elevadas, devido a redução da margem de lucro das empresas e crescimento do risco de encerramento, interrupção ou renegociação de contratos de joint ventures, subsidiárias e de acordos comerciais firmados entre empresas dos dois países.
Além disso, podemos pensar no aumento dos custos logísticos e tributários, assim como da necessidade de realizar ajustes regulatórios e fiscais; crescimento da necessidade de repensar as etapas da cadeia produtiva, a fim de evitar a produção advinda do país taxado, o que leva a opção por realocar a produção em outros países, afetando as indústrias brasileiras; por fim, caso haja de fato uma queda nos investimentos nessas empresas Brasil-EUA, poderão haver o aumento das demissões no Brasil, nos setores mais dependentes do mercado americano, assim como poderá um aumento do desequilíbrio na balança comercial entre os país, que já era deficitária do lado brasileiro.
3- Essas possíveis taxações poderiam acelerar a necessidade de maior integração do Brasil com outros mercados?
Sim, a taxação poderá acelerar a procura brasileira com outros mercados globais. Atualmente, os EUA representam o 2° maior comprador do Brasil, o que agrava ainda mais os impactos da taxação para a saúde financeira de empresas e indústrias altamente dependentes das exportações para o mercado americano, o que leva a necessidade dessa diversificação.
Já foi expressado pelo Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, o compromisso do governo brasileiro de buscar novos mercados, principalmente nas regiões que possuem um consumo elevado de produtos brasileiros, como o Oriente Médio, países do sudeste asiático e o Vietnã, Canadá e demais países do Sul Global. Além disso, a conclusão do acordo entre o Mercosul e a EFTA (Associação Europeia de Livre-Comércio) e o acordo Mercosul-UE poderão ganhar força neste momento, devido à oportunidade e aos incentivos criados para a exploração desses mercados.
Além disso, as vendas para os mercados chineses podem se aprofundar, assim como as relações comerciais entre os demais países do BRICS. Neste sentido, com as tarifas, foi criado mais incentivos para a negociação de acordos econômicos bilaterais e multilaterais, visando reduzir a dependência do mercado americano, assim como o país deverá atuar de forma mais ostensiva nos fóruns como OMC, buscando atuar de forma contrárias a medidas unilaterais no comércio internacional.
4- Como essa taxação poderia afetar decisões sobre diversificação de mercados e fornecedores no planejamento estratégico de suprimentos?
As tarifas impostas pelos EUA representam um forte desafio para as empresas, impactando diretamente o planejamento estratégico de suprimentos, principalmente no que tange a diversificação de mercados e fornecedores e neste sentido, alguns cenários podem ser analisados. Caso o Brasil opte por retaliar os produtos americanos com tarifas, haverá impactos, de prazos e custos, nas empresas brasileiras que importam dos EUA, o que levaria a necessidade de se buscar novos fornecedores em outros países, principalmente nas regiões que o país já possui acordos comerciais já firmados, como a Ásia, Mercosul e União Europeia.
As tarifas também afetam diretamente o custo dos insumos utilizados nas empresas americanas que dependem das importações brasileiras, e isso cria incentivos para que as empresas reavaliem o seu portfólio de fornecedores com base nos custos de aquisição dos produtos. Por fim, como essas taxas reduzem a competitividade dos produtos brasileiros, poderia haver o redirecionamento dos produtos para novos mercados, que poderiam absorver os produtos anteriormente exportados para os EUA, movimento que seria fundamental para a redução dos riscos de dependência de apenas um único mercado consumidor.
5- Quais seriam os impactos diretos para empresas brasileiras exportadoras, com as tarifas americanas?
Os impactos nas empresas brasileiras exportadoras ocorrem diretamente em diversas cadeias produtivas. Desta forma, a elevação dos custos de exportação tornam os produtos menos competitivos nos EUA, principalmente aqueles que podem ser substituídos por outros concorrentes de países não onerados pelas tarifas, o que leva a perda de competitividade dessas empresas no mercado americano. Neste sentido, não apenas os volumes de vendas serão impactados, como também a receita das empresas, que por consequência afetarão, no longo prazo, a geração de empregos e a arrecadação de impostos, caso não haja a diversificação de mercado e o escoamento dessa produção para outros países, a fim de absorver os prejuízos gerados pelas tarifas.
Devido a esses fatores, acordos comerciais entre empresas brasileiras e clientes americanos podem sofrer com o processo de renegociação ou até mesmo cancelados. Além disso, no curto prazo, as empresas com ações na bolsa podem sofrer com oscilações bruscas em seu valor, devido à incerteza gerada pela aplicação dessas tarifas.
6- De que forma a imposição de tarifas sobre o Brasil pode afetar a balança comercial e o fluxo cambial no curto e médio prazo?
Com relação aos impactos na balança comercial, no curto-prazo as tarifas irão reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, levando a diminuição das exportações para o mercado americano, o que aumentaria o déficit comercial com os EUA. No médio prazo, pode haver a diversificação dos mercados para outras regiões, que em alguns casos pode elevar os custos de adequação, a presença de empresas brasileiras em território americano podem fechar ou indústrias em território nacional, antigamente dependentes apenas dos EUA, podem encerrar as suas atividades exportadoras, agravando ainda mais o déficit na balança comercial.
A respeito dos impactos no fluxo cambial, no curto prazo há a redução da entrada de dólares devido a redução das exportações, levando a um processo de desvalorização cambial do real. A desvalorização do real, no curto prazo, também acaba provocando o aumento da inflação, devido ao aumento dos preços dos produtos importados no Brasil, o que também aumentaria o déficit comercial. Esse fato somado com a volatilidade nos mercados acionados criado pela imprevisibilidade nas relações comerciais entre Brasil e EUA, pode ocorrer o encarecimento das operações, devido a exigência de um maior hedge cambial.
Já no médio prazo, caso o Brasil consiga redirecionar as exportações para novos mercados, poderá haver uma melhora no equilíbrio do fluxo cambial. Porém, caso haja a fuga de capital produtivo, esse fluxo se tornará cada vez mais frágil. Além disso, a percepção do risco sobre o Brasil também poderá afetar a realização dos investimentos estrangeiros diretos, o que afeta de forma negativa o balanço de pagamento.