
As exportações brasileiras de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada registraram forte crescimento em 2025. De acordo com dados parciais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), até 25 de agosto a média diária de receita foi de US$ 74,55 milhões, um aumento de 70,1% em relação ao mesmo período de 2024, quando era de US$ 43,83 milhões. Esse avanço representa um acréscimo diário de US$ 30,71 milhões, o maior ganho absoluto entre os principais itens da pauta exportadora nacional. Em termos de participação, a carne bovina passou de 3,35% das exportações brasileiras em agosto de 2024 para 5,22% em 2025.
O crescimento foi sustentado tanto pelo maior volume quanto pela valorização da cotação. A média diária exportada nos primeiros 25 dias de agosto foi de 13.307 toneladas, frente a 9.882 toneladas no ano anterior, alta de 34,7%. Já o preço médio por tonelada aumentou 26,3%, passando de US$ 4.435,40 para US$ 5.602.
Esse desempenho positivo ocorre em um cenário de intensas transformações no comércio internacional. O principal impacto veio do tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos à carne bovina brasileira, que reduziu a competitividade do produto no mercado norte-americano. Antes da medida, o Brasil era responsável por cerca de 27% das importações americanas mas, em apenas seis meses, os efeitos já foram sentidos: o preço médio por libra de carne bovina nos EUA chegou a US$ 11,875, uma alta de 9% e recorde histórico. A carne moída, que responde por quase metade do consumo per capita dos norte-americanos, também subiu quase 15%, passando de US$ 5,45 para US$ 6,25 por libra.
O encarecimento da proteína nos EUA decorre da combinação de três fatores: (i) a queda da produção doméstica, (ii) o tarifaço contra o Brasil e (iii) as restrições sanitárias ao México. Até 2024, o México atendia cerca de 15% das importações americanas por meio do fornecimento de gado vivo, mas perdeu espaço devido à ocorrência da doença NWS (Bicheira do Novo Mundo).
A situação é agravada por problemas estruturais da pecuária norte-americana. Segundo o relatório Cattle Inventory do USDA-NASS, o rebanho bovino dos EUA atingiu em janeiro de 2024 o menor nível em 74 anos, com 87,2 milhões de cabeças (queda de 2% em relação a 2023). Em 2025, o país opera com o menor efetivo desde 1951, incluindo redução de 2,4% no número de matrizes de corte, que somam 28,2 milhões de fêmeas. Esse cenário é resultado de anos de liquidação forçada do rebanho, motivada por secas persistentes que elevaram custos e comprometeram a reposição de animais. Como os EUA respondem por 20% da produção mundial e têm consumo per capita de cerca de 25 kg ao ano, a queda na oferta interna aumenta a dependência de importações e intensifica a disputa entre fornecedores globais.
Enquanto perde espaço no mercado americano, o Brasil expande sua presença em outros destinos estratégicos. Em 2025, a carne bovina brasileira chegou a aproximadamente 160 países, consolidando a liderança do país como maior exportador mundial. O México se destacou com um aumento de 420% nas compras no primeiro semestre, ultrapassando os Estados Unidos e assumindo a posição de segundo maior importador da carne brasileira. A China, principal cliente, ampliou suas aquisições em 14%, enquanto o Chile elevou sua demanda em 20%. Além disso, mercados do Oriente Médio, Sudeste Asiático e Leste Europeu vêm ganhando importância, criando oportunidades de diversificação e maior valorização do produto. A evolução desses fluxos comerciais pode ser visualizada no gráfico a seguir, que mostra a participação dos principais países importadores da carne bovina brasileira em agosto de 2025.
Participação, por país, das importações da carne bovina brasileira em agosto de 2025

Fonte: COMEX
Esse processo de reconfiguração exige que a indústria brasileira combine qualidade, diversificação e diplomacia comercial. A valorização da carne como produto de excelência, sustentada por protocolos sanitários rigorosos, é fundamental para conquistar a confiança de novos consumidores. Nesse sentido, missões comerciais e negociações bilaterais são essenciais para reduzir barreiras tarifárias e avançar em mercados de maior valor agregado, como China e União Europeia.
Para mitigar os efeitos imediatos do tarifaço, o Governo Federal lançou uma Medida Provisória que libera R$ 30 bilhões em crédito às empresas do setor. O objetivo é garantir capital de giro, preservar empregos e financiar adaptações necessárias para atender às exigências de novos mercados. O pacote inclui ainda juros reduzidos, prorrogação de tributos suspensos e a possibilidade de compras governamentais de excedentes não exportados.
Assim, apesar das dificuldades impostas pelos Estados Unidos, o Brasil tem conseguido redirecionar suas exportações, consolidar parcerias estratégicas e contar com apoio governamental. Esse movimento não apenas compensa a retração no mercado norte-americano, mas também reforça a posição do país como o maior exportador mundial de carne bovina.