CONTEÚDO

O Impacto da Reforma Tributária na Seleção de Fornecedores no Brasil

Texto por Leonardo de Assis Santos, CEO Cadarn Consultoria e Danilo Domingos, CEO Diagrama Assessoria

A Reforma Tributária brasileira, focada na simplificação do sistema de impostos sobre o consumo, introduz mudanças estruturais que vão muito além da área fiscal. Uma das áreas mais afetadas por essa transformação é a gestão da cadeia de suprimentos e, especificamente, o processo de seleção de fornecedores. Com a substituição de tributos como ICMS, ISS, PIS e COFINS pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), a eficiência fiscal passa a ser um critério estratégico central nas decisões de compra.

Este texto analisa as principais mudanças que a Reforma Tributária trará para a seleção e gestão de fornecedores no Brasil, destacando os novos critérios de avaliação, os riscos envolvidos e a reconfiguração logística e regional.

A Dependência da regularidade fiscal do fornecedor

Uma das mudanças mais significativas trazidas pela Reforma Tributária é a nova lógica de não cumulatividade plena. No novo sistema, os créditos de impostos só poderão ser aproveitados se o fornecedor tiver efetivamente recolhido o tributo na etapa anterior. 

Até que o modelo de split payment (pagamento fracionado, onde o valor do tributo é automaticamente separado e enviado ao governo no momento da liquidação financeira) esteja plenamente implementado, a empresa compradora passa a depender diretamente da regularidade fiscal de seus parceiros para assegurar seu próprio crédito tributário. 

Isso significa que fornecedores que oferecem preços menores, mas que não cumprem com suas obrigações fiscais ou não geram créditos integralmente (como pode ocorrer com algumas empresas do Simples Nacional, dependendo da regulamentação final), podem esconder um custo fiscal oculto que recairá sobre a empresa compradora, reduzindo sua margem de lucro.

Além da regularidade cadastral, o comprador terá que ter atenção ao regime tributário do fornecedor. Como por exemplo quando os fornecedores são tributados pelo Simples Nacional e a empresa compradora for optante pelo regime de Lucro Presumido ou Lucro Real os créditos tributários do fornecedor serão menores que as alíquotas praticadas na empresa. Isto ocorre porque no Simples Nacional, caso não haja nenhum ajuste futuro na Reforma, as alíquotas são diferenciadas dos tributos por ser um regime especial, assim, são aliquotas menores do que às pré-estabelecidas no IBS e CBS.

Pontos Críticos de Atenção neste caso:

  1. Limitação dos créditos: O comprador só terá direito a créditos equivalentes ao montante efetivamente pago pelo fornecedor do Simples Nacional.
  2. Alíquotas efetivas: As alíquotas do Simples são progressivas por faixa de receita, podendo variar constantemente e são inferiores às alíquotas padrão do IBS/CBS.
  3. Documentação fiscal: A alíquota aplicável deve ser informada no documento fiscal do fornecedor enquadrado no Simples Nacional (Art. 47, §2º). É prática comum das empresas tributadas no Simples Nacional, não informarem em seus documentos fiscais as alíquotas efetivamente aplicada, devido a falta de gestão tributária e atualização nos sistemas de emissão de notas fiscais

Novos critérios estratégicos de seleção de fornecedores

Diante desse cenário, o processo de aquisição deixa de ser focado apenas em preço, prazo e qualidade. A área de compras assume um papel mais estratégico, onde o comprador precisa analisar o impacto dos novos tributos no custo total de aquisição, elevando a relevância de sua aplicação.

Assim, os critérios para avaliação e seleção de fornecedores tendem a incluir:

Critério de AvaliaçãoImpacto na Empresa Compradora
Capacidade de Geração de CréditosDetermina o volume de créditos de IBS e CBS que poderão ser aproveitados, impactando diretamente o custo real da operação.
Regularidade e Conformidade FiscalEvita o risco de glosas de crédito, rejeição de notas e multas por falta de documentação correta.
Nível de Maturidade TecnológicaGarante a capacidade do fornecedor de emitir documentos fiscais corretamente e aderir à nova sistemática de split payment e obrigações acessórias.
Governança de Dados MestresAssegura que informações como CNAE, endereço e enquadramento tributário estejam sempre atualizadas, evitando inconsistências que impactam a apuração de impostos.

O fim da guerra fiscal e a reconfiguração regional

Sob o regime tributário anterior, a chamada “guerra fiscal” entre os estados influenciava fortemente a localização de fornecedores e centros de distribuição. Benefícios de ICMS frequentemente compensavam ineficiências logísticas, como limitações de infraestrutura ou distância dos grandes centros consumidores.

Com a transição para o IBS e a CBS, a tributação passa a incidir no destino do consumo (onde o bem ou serviço é consumido), reduzindo drasticamente o espaço para incentivos fiscais estaduais baseados na localização. Essa mudança altera a equação de competitividade regional e a estratégia de sourcing das empresas.

A localização de fornecedores e centros de distribuição passará a ser avaliada com base no custo total da operação, incorporando variáveis como:

  • Infraestrutura logística disponível;
  • Proximidade dos mercados consumidores e de outros fornecedores;
  • Disponibilidade e custo de mão de obra;
  • Prazos de entrega e previsibilidade regulatória.

Estados com maior densidade econômica e infraestrutura robusta tendem a se fortalecer, enquanto estruturas logísticas criadas exclusivamente para a captura de benefícios fiscais tenderão a perder sentido econômico.

A homologação de fornecedores como ativo estratégico

Com o novo modelo, as informações cadastrais dos fornecedores deixam de ser uma mera formalidade burocrática e se tornam criticamente estratégicas. A consistência de dados mestres, como endereço, CNAE, enquadramento e regularidade fiscal, passa a impactar diretamente a apuração do IBS e da CBS. Assim, ter um bom processo de homologação será essencial para o estabelecimento de bons negócios e aquisições.

Atualmente, estima-se que uma grande parcela das empresas sofra com inconsistências cadastrais em seus parceiros comerciais. Para operar no novo modelo, será necessário complementar os softwares de gestão de fornecedores com soluções robustas de governança de dados, automação e monitoramento contínuo, como a dos nossos parceiros da Gedanken. As empresas precisarão acompanhar, em tempo real, alterações de endereço, mudanças de regime tributário e variações na regularidade fiscal de toda a sua base de fornecedores.

Impactos na precificação e revisão de contratos

A simplificação dos tributos e a aplicação de novas alíquotas exigirão que os preços praticados pelos fornecedores sofram ajustes, bem como a sua maior transparência junto aos seus clientes. As empresas precisarão recalcular os custos de aquisição e revisar ativamente seus contratos vigentes, considerando as novas incidências tributárias para evitar surpresas no orçamento e perda de competitividade.

Além disso, a transição exigirá novas diretrizes para compliance fiscal nas relações de compra, aumentando as exigências de padronização, rastreabilidade e transparência nas negociações.

A Reforma Tributária brasileira transforma o fornecedor no centro da estratégia fiscal das empresas. A escolha de parceiros comerciais passa a ser uma alavanca estratégica para o sucesso financeiro e operacional. Organizações que se anteciparem revisando seus processos de cadastro, fortalecendo o compliance, adotando tecnologias de monitoramento e repensando sua malha logística com base na eficiência real (e não mais em incentivos fiscais) conseguirão atravessar a transição com segurança, garantindo previsibilidade financeira e vantagem competitiva.


Referências

[1] O impacto da Reforma Tributária no cadastro de fornecedores – Portal ERP

[2] Nova Reforma Tributária: Por que Escolher Fornecedores Fiscalmente Eficientes Vai Impactar o Lucro da Sua Empresa – Contática 

[3] Os 7 principais impactos da Reforma Tributária em Compras – Live University 

[4] Reforma Tributária e o impacto silencioso nas relações de compra – Jornal do Brás 

[5] Reforma Tributária: fim da guerra fiscal reconfigura competitividade regional – Portal Contábeis

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